“Hippie” ou “Maluco de Estrada”?
Conhecidos no senso comum como “hippies” (título amplamente rejeitado dentro do “movimento”), os “malucos” ou “malucos de estrada”, ou “malucos de BR” (nomes pelos quais eles se reconhecem) são os protagonistas/atores sociais de uma expressão cultural, no Brasil, que apresenta características singulares, comportando uma cosmovisão, práticas, estilos de vida, fazeres e saberes que conferem as matizes características desta expressão.
Uma expressão cultural que foi sendo construída há várias décadas e, no Brasil, decorrente dos diálogos entre os movimentos de contracultura da década de 60 – inclusive o movimento hippie como aqui chegou e foi traduzido –, os cenários interculturais brasileiros, os contextos políticos, sociais e econômicos específicos com os quais interagiu e os demais com os quais se hibridou, através de uma complexa teia de relações, tem-se configurado no “maluco de estrada”. Além disso, sendo uma cultura viva e dinâmica, encontra-se em constante movimento, já que continua se mestiçando, dialogando e transformando-se, o que reafirma seu permanente frescor e contemporaneidade.
Esta figura mestiça, híbrida, o “maluco de estrada”, é antes o resultado de encontros, e sua especificidade resulta destas combinações infinitas e da reformulação de diversas heranças. Além disso, sua frequente postura de nômade, de viajante, reforça ainda mais sua condição de antropófago, de “canibal”, pois devora e reconfigura aquilo que encontra – os lugares, as paisagens, as histórias, as matérias-primas, a forma de ser e viver das pessoas com as quais se depara – sendo permeado destes encontros e desencontros, destas ambivalências, destas tensões, memórias e esquecimentos, que alimentam o perpétuo movimento, seu perpétuo tornar-se, vir a ser.
Atualmente, é inegável a presença desta cultura/patrimônio cultural imaterial no contexto da diversidade cultural brasileira (estando de acordo com o que a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial considera como patrimônio imaterial), sendo de importância crucial ressaltar que os integrantes desta manifestação cultural se reconhecem como pertencentes à um grupo, o qual se referem como “família”. Além disso, comportam uma gama de códigos morais específicos, uma estética peculiar, um estilo de vida onde relacionam-se o nomadismo, a postura marginal (à margem do establishment) e práticas específicas, tais como a tríade “mangueio-mocó-carona”, um vocabulário sui generis e uma visão de mundo que difere bastante das hegemônicas, sendo também portadores de uma expressão artística característica, representada pelos tipos de artesanato que produzem a partir de seu ofício, exposto em espaços públicos das cidades e possuidor de duplo caráter, comercial (ligado à subsistência do artesão) e cultural (valor simbólico, político e existencial).
Por fim, vale destacar que esta reflexão é antes um convite a olhar o “maluco de estrada” não como um tipo exótico brasileiro, definido e definitivo, portador de uma cultura alheia, estranha ou primitiva, mas como uma figura que possui sim uma cultura singular, mas que, antes de tudo, compartilha conosco, com o “outro”, em múltiplas facetas, várias formas de ser que mais nos aproximam que nos afastam, porque devorou e tem devorado a todos nós: menos idêntico a si, antes feito dos outros.

Ao longo do tempo houve uma deterioração da ideologia dos caminhantes, dos caroneiros, dos ditos “hippies”, denominação que sempre refuguei, desde que “caí na estrada”, em 1980. Antes disso, viajei várias vezes de carona, no estilo, mas tinha uma casa burguesa pra voltar no final das férias. Então, quando viajava, encontrava sempre malucos viajando, em cada trevo, em cada posto, nos acostamentos. E me aproximava, quando havia alguma empatia. Talvez por isso mesmo, só tratava com filósofos de mentalidade densa e postura clara anti-sistema, com base ideológica e prática coerente. Depois, já sem casa pra voltar, comecei a perceber “invasores”, pessoas de forma “hippie”, mas de conteúdo convencional, cheias de verdades, de preconceitos, de arrogância, impondo valores e desprezo pelos “caretas”. Percebi a diferença entre os que se atiravam ao mundo daquela forma por opção e os que se faziam de hippies por falta de opção, como um recurso de auto valorização diante da impossibilidade de obter valorização dentro das convenções. Aí o dito movimento foi enfraquecendo, foi sendo invadido pelos sem caráter e sem ideologia, pela ignorância e pelo preconceito – e perdeu seu poder de contágio, antes avassalador, pela sinceridade, pela densidade, pela força de uma ideologia amorosa e agregadora, tolerante e solidária. O egoísmo e a vaidade, junto com a repressão do sistema, arrasaram com o estilo de vida e espalhou os puros de antes, incapazes de maldades e falsidades. Em 2005 fiz uma viagem de carona, do Rio ao Ceará e vice-versa, e não vi um caroneiro por todo o caminho, além de nós – eu e dois filhos (grandes). Antes era impossível não encontrar caroneiros, hoje parece impossível encontrá-los. A estrada já os repele. E dos malucos de artesanato, não espero mais filosofia – fora as filosofias fajutas, pejadas de preconceitos e sem base nenhuma. Ficou a forma, o conteúdo foi esvaziado, nesse meio. As exceções estão espalhadas em todos os lugares e não dependem da forma.
Concordo absolutamente com Eduardo Marinho,que compactou o que presenciei desde os primeiros momentos que começei a caminhar.Existe uma forma que atrai algumas pessoas que ainda hoje se dispõem a participar do “movimento”,porém quando se está verdadeiramente caminhando(na estrada,vivendo da arte que faz,criando filhos,lidando com a sociedade igualitária) é que percebe-se que pouquissimas pessoas vivem realmente a alternatividade e consequências de pelo menos querer não participar deste sistema,naturalmente não conseguimos sair de uma rotina sistemática,e é assim que voltamos ao ponto de partida.E pelo mais, divulgarei o possível esta iniciativa de educar a sociedade sobre esta tribo que não para de crescer,caminhar e falar,e que a cada dia perde espaço e ganha reservas.
hippies é moda,,éa moda hiipe é roupas hippies..MALUCO DE BR vai alem disso..muito alem..por isso o noem MALUCO ,pq foge dos padroes normais.e esteticos,,,