Pular para o conteúdo

38 “hippies” presos no jardim da igreja São José em 1978 – Um estudo de caso – 1°Parte

27/11/2012

Jornal “Diário da Tarde” -Belo Horizonte – 1978

“Prisão de 38 Jovens no jardim da São José”

                      

Raro “registro” da repressão aos “hippies” na década de 70, em Belo Horizonte, e que nos dias de hoje ganha enorme importância como estudo de caso e material de pesquisa sobre o tema. Iremos retirar alguns trechos das matérias e analisar*:

*Nossas observações estão em marrom.

“Prisão de 38 Jovens no jardim da São José”

“As pessoas que passaram nos jardins da igreja São José, entre 15h45m e 16h de ontem, ficaram surpresas ao ver tantos homens fortes firmando pelos braços mocinhas e rapazes mal vestidos (1), para, em seguida, sair com eles em alguns carros, com placas de cidades vizinhas a Belo Horizonte (2).”

1- Detalhe para o “mocinhas e rapazes mal vestidos”, típico preconceito que até hoje persiste. 

2- Em nossas entrevistas audiovisuais com artesãos desta época (década de 70) é comum ouvir relatos de serem levados por carros com placas de outras cidades. Em geral eram levados a delegacias de cidades vizinhas, tinham sua identidade checada, era comum haverem sessões de tortura ou então eram abandonados na estrada, com aviso para que não voltassem.

“Segundo informações do delegado Genésio Ferreira, ele recebeu uma queixa feita à Inspetoria de Detetives, dizendo que “rapazes e moças em promiscuidade(1) estavam sentados nos arredores da igreja de São José, o que representava uma afronta aos fiéis(1), com total falta de respeito às senhoras.””

1- Ou seja, o simples fato de existirem e serem diversos dos padrões morais e culturais da época o tornavam uma afronta à sociedade.

“Um tapa

Na luta do delegado Marcos com os rapazes, ele levou um tapa no rosto. E quem esbofeteou o policial foi uma moça morena, alta, com vestido longo. O delegado ficou bastante vermelho e continuou perseguindo a moça, entre gritos e choros (1). Um homem mais limpo que os rapazes (2) pedia calma.”

1- Fica claro que houve resistência por parte dos artesãos, o que não podemos esclarecer, já que a matéria não cita a origem do conflito, é o que motivou uma moça “hippie” a bater em um delegado policial em plena ditadura. Dificilmente a reportagem penderia a favor dos “hippies”, mas podemos supor que ela tenha sofrido alguma agressão primeiro.

2- A associação entre o “hippie” e sujeira continua viva nos dias de hoje, é apenas mais um dos estigmas que se perpetuam pela falta de informação e o preconceito da sociedade.

“Os rapazes e moças iam sendo colocados em carros chapas-frias (1). Numa Rural Willys, JJ-9256 de Crucilândia, foram colocadas aproximadamente dez pessoas. Antes de serem levados para a 2° Delegacia Metropolitana, outros para a Divisão de Tóxicos, tiveram liberdade para apanhar o material que estavam vendendo (2).”

1- Mais uma vez menção ao uso de carros a paisana.

2- Ah, essa é uma das que eu mais gosto. A repressão nada tinha haver com os artesanatos que eles produziam ou com o fato de venderem na rua. Esta passagem deixa claro que a repressão era, como até hoje é, ideológica.

“Já há mais de uma semana os jardins da igreja de São José receberam boa quantidade de rapazes e moças, que se consideram andarilhos (1) e que, para sustento, fabricam em metal e couro, anéis, cordãozinhos, braceletes, pulseiras e bolsas.”

1- Observem que já nesta época (1978) os popularmente conhecidos como “hippies”  já se apresentavam como artesãos e andarilhos (nômades).

“…um deles diz que a noticia (2) de que a turma estava vendendo bem em Belo Horizonte (1) se espalhou por todo o país (2)…”

1- Em nossas pesquisas e entrevistas com os artesãos, Belo Horizonte sempre é citada como uma das melhores capitais do país para expor artesanato.

2- Pode ser que nessa época ainda não existisse o termo “Rádio Cipó” (nome pelo qual os artesãos se referem a narrativa oral da cultura), mas ela já funcionava muito bem.

“Entre os 38 presos, estão moças e rapazes do Chile, do Uruguai, Paraguai, Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina, de Belo Horizonte e algumas cidades do interior do estado (1).

1- Assim como nos dias de hoje, naquela época já era evidente o multiculturalismo e a condição nômade dentro do movimento.

“As gaúchas e uruguaias sempre se dirigiam à polícia por “chê” (1). ”

1- Multiculturalismo e intercâmbio cultural.

“Na 2° Delegacia Metropolitana…os rapazes tiveram que tirar a roupa em um pequeno pátio do prédio…Os rapazes tiraram a roupa, algumas bastante rasgadas (1), mas a policia não encontrou as anunciadas drogas e maconha (2).”

1- A reportagem cismou com a roupa da galera hein?!

2- Historicamente a questão das drogas foi e continua sendo usada para criminalizar o movimento. E também para legitimar o preconceito e estranhamento da sociedade com relação ao tema. Em nossas pesquisas encontramos diversos artesãos que fazem uso de drogas (a maioria deles fazendo uso excessivo de drogas legalizadas como álcool e nicotina) e também encontramos diversos artesãos abstêmios, sem vícios. As drogas não um privilégio da cultura dos artesãos nômades, nem tão pouco uma condição nata de seus membros.

“Já Paulo Eustáquio Diniz é da capital. Ele afirma que esteve na Praça da Liberdade quinta-feira, para vender seus trabalhos, mas segundo ele lá “só havia bijouterias” (1).”

1- Neste trecho o artesão informa que foi a praça da Liberdade (praça onde se realizava a famosa “Feira Hippie”), mas que não se identificou com o local devido a maciça presença de “bijouterias”. Um aviso, nunca se refira ao artesanato de alguém como “bijouteria”, é extremamente ofensivo. Para um artesão nômade, bijouteria é também conhecido como “fuleiragem” e representa a industria, a cópia, o artificial.

Outro dado importantíssimo que podemos extrair desta fala, é que apenas 7 anos após a prefeitura regulamentar o espaço original dos artesãos nômades, conhecido na cidade como “Feira Hippie” e realizada na praça da Liberdade, ela já se encontrava descaracterizada e não era mais reconhecida como local desta cultura. Isso justifica a migração para os jardins da igreja de São José e que posteriormente passaria a ser a praça Sete.

“O vereador Paulo Portugal (do Arena), ao ser perguntado se teria ele pedido providências à polícia para retirar dos jardins da igreja os “hippies”, respondeu: “Acho que eles até poderiam ficar aqui. Mas não respeitam as pessoas, ficam maconhados e deram para levantar vestidos de moças. Até de uma irmã de caridade eles levantaram a saia… (1)”

1- Não podemos comprovar a veracidade deste hábito na época, este é o único registro com essa acusação. Mas em nossas pesquisas e registros jamais presenciamos um artesão levantar a saia de alguém ou ouvimos qualquer relato sobre isto. Nos parece mais um pretexto moralista para reforçar o preconceito sobre o grupo.

Em breve, a segunda parte deste estudo.

About these ads

From → Sem categoria

3 Comentários
  1. teresa mendes Link Permanente

    parabens galera um otimo trabalho

    asé

  2. Andreza Link Permanente

    Nota-se que em relação ao preconceito muita coisa ainda não mudou. Ainda hoje, a igreja fechou seus portões quando parte dos malucos começaram expor lá na frente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 170 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: