A revolução não será televisionada!
Intervenção urbana de arte/política censurada em 2009 e multada em R$ 17.103,80 pela prefeitura de Belo Horizonte será refeita com a força do financiamento colaborativo e pretende informar à sociedade o que a imprensa convencional não mostra!
No dia 25 de maio de 2012, sexta-feira, será realizada na Praça Sete, centro de Belo Horizonte, uma intervenção urbana que busca lançar luz sobre a expressão cultural protagonizada pelos “malucos de estrada”, popularmente conhecidos como “hippies”, e todo o cenário de repressão e luta política que tem permeado sua presença no local.
Além da construção coletiva e artesanal de um expositor fotográfico coerente com a cultura destes artesãos nômades, a intervenção compõe-se por fotografias que relembram as violações cometidas pela prefeitura de BH contra os artesãos que naquele local expõem sua arte e que nunca foram noticiadas pelas mídias convencionais da cidade.
Soma-se a isto diversas fotos que revelam facetas da cultura do “maluco de estrada”, expressão cultural brasileira fortemente influenciada por aspectos dos movimentos “hippie” e “beatnick” e que, após 40 anos de existência, permanece invisível para a maior parte da sociedade.
Estaremos distribuindo cópias do recente parecer da Procuradoria Geral do Município, que considerou ilegais as operações de fiscalização realizadas contra estes artistas, revogou todas as multas aplicadas e ordenou a devolução de todos os seus materiais apreendidos durante a gestão do prefeito Márcio Lacerda. Considerando que nenhum órgão da mídia convencional se dispôs a noticiar este importante fato e para que todos tomem conhecimento da decisão, é fundamental que lancemos luz sobre ele.
Além da exposição das fotos e da distribuição do documento, outras intervenções surpresas estão “imprevistas”.
Tome nota:
Intervenção de arte/política “A beleza da margem, à margem da beleza”.
Local: Praça Sete (quarteirão Xacriabá). Na Rua Rio de Janeiro, entre Av. Afonso Pena e Rua Tamoios.
Data: 25 de maio de 2012
Horários:
9:00 às 14:00 Construção artesanal do expositor de fotografias
14:00 às 18:00 Intervenção
Haverão outras intervenções, sem data programada.
Mudanças no blog
Gente, peço desculpas pela bagunça no blog, estamos fazendo uma série de mudanças ao longo desta semana e é possível que algumas coisas estejam offline ou desconfiguradas.
Fragmento retirado do inventário: ”Malucos de Estrada – A reconfiguração do movimento hippie no Brasil”
Texto de Ariane Soares e Rafael Lage
A expressão cultural protagonizada pelos “artesãos hippies” (conhecidos no senso comum como “hippies”, chamados entre si de “malucos” ou “malucos de estrada” e aqui chamados também de “artesãos nômades” ou simplesmente artesãos) tem deixado marcas profundas na cidade de Belo Horizonte, onde pode ser notada desde a década de 60, quando estes e outros artistas expunham no chão seus trabalhos na Praça da Liberdade. Este ambiente informal, fortemente comunitário, onde prevalecia a possibilidade de expressar-se artística e culturalmente, tornou-se um ponto de visitação e entretenimento, atraindo muitas pessoas. É inegável que a influência da cultura “Hippie” incutiu hábitos na cidade, interferiu na cultura e reconfigurou o espaço urbano. Uma herança iniciada há mais de 40 anos e que ainda hoje permanece interferindo.
Com o passar do tempo, a prefeitura da cidade passou a regulamentar as atividades no espaço conhecido como “Feira Hippie”, seu primeiro regulamento foi feito em 1971 (na praça da Liberdade) e ainda carregou alguns traços da cultura, como o modo de exposição dos artesanatos em cima de um “pano no chão”, como podemos ver no artigo 17: “Tratando-se de uma FEIRA de arte, fica proibida a montagem de barracas, admitindo-se, entretanto, a instalação de guarda-sol praiano, colorido ou não.”
Obs: Posteriormente esse artigo foi substituído e hoje é obrigatório a montagem de uma barraca padronizada.
Fonte: Estado de Minas
Feira Hippie na praça da Liberdade em 1969 – Pano no chão e ambiente de informalidade
Fonte: Autoria desconhecida
Feira Hippie na Av. Afonso Pena nos dias atuais – Mega empreendimento comercial
Foto: Rafael Lage
Praça Sete nos dias de hoje - Pano no chão e ambiente de informalidade
De ambiente cultural, artístico e informal a feira vai progressivamente tornando-se uma empreitada predominantemente comercial, o que foi gerando crescente desidentificação e afastamento dos “artesãos hippies”. Eles começam a se retirar da feira no final da década de 80, migrando paulatinamente para a Praça Sete, onde até hoje permanece sendo o espaço de encontro dessa cultura, onde interagem, expressam-se e expõe sua arte, fundamental para sua manutenção histórica e cultural.
Esta migração deixa claro que a cosmovisão e afinidades desse grupo cultural impede que se enquadre no formato de feira concebido hegemonicamente, com bancas e regulamentações específicas (caso da atual feira na Avenida Afonso Pena), demandando, para se expressar enquanto cultura e exercer seu ofício, de um espaço norteado por parâmetros coerentes com esta cultura, como o que pode ser visto na configuração da remota feira hippie na Praça da Liberdade ou na Praça Sete, atualmente, os quais remetem mais a um ambiente de intervenção artística e cultural, do que a uma feira propriamente dita.
Um dos legados desse grupo cultural, forjado em suas origens com ampla participação destes atores sociais, representa hoje a maior feira aberta da América Latina, apresentando-se num formato radicalmente diferente dos saudosos domingos culturais na Praça da Liberdade, nos anos de sua gestação, não só de um ponto de vista logístico, mas fundamentalmente ideológico. Converteu-se num mega evento comercial que movimenta a economia da cidade nos segmentos hoteleiro, de transporte, alimentação e comércio varejista e atacadista.
A feira inclusive teve seu nome legalmente alterado, e embora sua “alma” tenha se deslocado para a praça Sete, a maioria da população continua a chama-la de “Feira Hippie”.
“Analisando os fatos e os entendimentos apresentados nessa consulta, vemos que o caso merece atenção redobrada sob pena de, em nome do ordenamento da cidade, ser transformada a cidade mesma, espaço público pertencente a todos, em um local de violência institucionalizada.”*
*Trecho retirado do parecer da Procuradoria Geral do Município de Belo Horizonte sobre os artesãos.
O parecer foi anunciado durante a terceira audiência pública (03/05/2012) sobre os artesãos que expõe nas ruas de BH. O documento possui ao todo 12 páginas. A primeira se trata da conclusão do parecer, que determina a suspensão de todas operações de fiscalização contra os artesãos, revoga todas as multas aplicadas e ordena a devolução de todos os artesanatos apreendidos. É um documento assinado por Josué Costa Valadão (Secretário Municipal de Governo) e encaminhada ao presidente da camara dos vereadores de Belo Horizonte.
Pelo parecer, a atividade do artesão é considerada permitida, por não haver nenhuma lei que proíba especificamente esta atividade. Para quem não se lembra, o artigo utilizado pela prefeitura para reprimir os artesãos era o “Art. 118″ do código de posturas do municipio, que diz: “É proibida a atividade de camelôs, toreros ou flanelinhas”
Além de citar o “principio da legalidade” como argumento, o parecer que é composto de 8 páginas, da destaque à “Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais”, documento da Unesco ratificado por um decreto legislativo aqui no Brasil. Este documento, trás um novo paradigma e ressalta a importância da diferenciação do objeto cultural, que possui dupla-natureza, tanto econômica, como cultural e que portanto deve ter uma regulamentação diferenciada do simples objeto industrializado.
Você pode ler o documento original do parecer aqui: PGM artesãos
Link para a reportagem da Câmara de Vereadores de BH: Comunidade conquista devolução de materiais apreendidos
Publicado no Diário Oficial do Município(Clique aqui para ver no local):
Caros, diante disso, afirmo duas coisas:
1- O impossivel é apenas aquilo que ainda não aconteceu.
2- 2012 será o nosso 1968!
“Os Hippies estão invadindo Belo Horizonte”
A historiadora Débora de Viveiros Pereira, em seu trabalho intitulado “MOVIMENTOS DE CONTRACULTURA EM BELO HORIZONTE”, observa:
“Geralmente, as reportagens com os hippies eram feitas ainda dentro do DOPS, enquanto detidos ao chegarem à capital mineira. Em reportagens como “Jovem venezuelano percorre o mundo para fazer amigos”, “Um boliviano, um argentino: dois estudantes suspeitos?” (13 de março de 1971) e “Os hippies estão chegando: êles trazem o amor livre” (11 de setembro de 1969) todos os envolvidos foram encaminhados à delegacia por “suspeita”, devido aos trajes e ao comprimento dos cabelos. Ainda que houvesse alguma condescendência para com o movimento, os hippies ainda eram tratados como criminosos por conta do modo de vida “andarilho”:
Os hippies estão invadindo Belo Horizonte. Mais dois foram detidos ontem e falaram que 15 estão a caminho de nossa cidade. [...]
Êles vivem pelas estradas pedindo comida nos restaurantes e carona nos caminhões. Quando chegam em alguma cidade arranjam algum trabalho para conseguir dinheiro. [...]
Ela acha um trabalho “muito difícil” levar o amor a tôdas as pessoas. E é isso que êsses rapazes e moças, com idades que variam entre 16 e 25 anos, andam fazendo pelas estradas. (DIÁRIO DA TARDE, 1969: 8).








